Inclusão de alunos neurodivergentes, inteligência artificial, racismo ambiental e uso excessivo de telas estão entre as apostas. Especialista do Colégio Stella Matutina também destaca repertórios que podem ajudar na argumentação
Com a aproximação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2026, a expectativa em torno do tema da redação aumenta entre os estudantes. Embora não seja possível antecipar a escolha da banca, acompanhar questões sociais em debate e revisar repertórios socioculturais são estratégias importantes para a preparação.
Para Josiane Guedes Sales, professora de Redação do Ensino Médio do Colégio Stella Matutina, de Juiz de Fora (MG), alguns assuntos que ganharam destaque ao longo do ano merecem a atenção dos candidatos. Entre eles estão a inclusão de estudantes neurodivergentes, os impactos do uso excessivo de telas, o descarte de lixo eletrônico, o racismo ambiental, a pressão estética e os desafios relacionados à inteligência artificial.
A professora ressalta que é difícil prever o tema escolhido para a prova, mas considera importante que os alunos estejam preparados para discutir diferentes questões contemporâneas.
Seis possíveis temas para a redação do ENEM 202
1. Desafios para a inclusão de alunos neurodivergentes ou com necessidades especiais na educação brasileira
A inclusão educacional é uma das questões apontadas pela professora. O tema permite discutir as dificuldades enfrentadas por estudantes neurodivergentes e com necessidades especiais, além da importância de garantir condições adequadas de aprendizagem e participação no ambiente escolar.
2. Impactos do vício em jogos e do uso excessivo de telas por crianças e adolescentes
O tempo dedicado aos jogos eletrônicos e às telas, especialmente entre crianças e adolescentes, também está entre as possibilidades. A discussão envolve hábitos digitais, saúde e os desafios relacionados ao uso excessivo da tecnologia.
3. Desafios para o descarte e a gestão do lixo eletrônico no Brasil
O descarte de equipamentos eletrônicos é outro assunto destacado. A temática abre espaço para reflexões sobre consumo, responsabilidade ambiental e destinação adequada de resíduos tecnológicos.
4. Persistência do racismo ambiental e impactos nas comunidades periféricas e tradicionais
A relação entre desigualdade social e problemas ambientais é outra aposta. O tema permite abordar como comunidades periféricas e tradicionais são afetadas por situações de vulnerabilidade ambiental.
5. Impactos da pressão estética e dos padrões irreais de beleza na sociedade brasileira
A influência dos padrões de beleza e da pressão estética também aparece entre os possíveis assuntos. A discussão pode envolver comportamento, relações sociais e os efeitos dessas exigências sobre os indivíduos.
6. Desafios éticos, sociais e econômicos do avanço da inteligência artificial no Brasil
A expansão da inteligência artificial e suas consequências para a sociedade completam a lista. O tema permite refletir sobre as transformações provocadas pela tecnologia e os desafios éticos, sociais e econômicos associados ao seu desenvolvimento.
Como treinar a redação na reta final?
Para Josiane, este é o momento de organizar e revisar os repertórios construídos ao longo da preparação, especialmente aqueles relacionados aos grandes eixos temáticos que podem aparecer na prova.
A professora recomenda atenção a cinco áreas: saúde, educação, direitos humanos e questões sociais, tecnologia e meio ambiente.
A orientação está alinhada ao trabalho desenvolvido durante o ano com os estudantes do Colégio Stella Matutina. Além de aprenderem a estrutura do texto dissertativo-argumentativo, os alunos produziram redações sobre diferentes eixos temáticos e receberam orientações para utilizar referências socioculturais de maneira coerente com os assuntos abordados.
Quais são os erros mais comuns na redação?
Entre os principais problemas observados nas produções textuais, Josiane destaca quatro pontos que podem comprometer o desempenho dos candidatos:
- Proposta de intervenção genérica: apresentar soluções pouco específicas para o problema discutido.
- Problemas linguísticos: cometer erros de ortografia e pontuação que prejudicam a qualidade do texto.
- Cópia dos textos motivadores: reproduzir trechos dos materiais de apoio em vez de desenvolver uma argumentação própria.
- Argumentação superficial: apresentar ideias sem aprofundamento ou fundamentação suficiente.
A recomendação é que os estudantes revisem esses aspectos e busquem utilizar seus conhecimentos para construir argumentos consistentes e coerentes.
Constituição, literatura e sociologia podem ajudar a ampliar o repertório
Entre as referências indicadas pela professora está a Constituição Federal de 1988, especialmente os artigos 5º, 6º, 196, 205 e 225.
Esses dispositivos abordam direitos e garantias individuais, direitos sociais, saúde, educação e preservação do meio ambiente, respectivamente. Por isso, podem contribuir para discussões relacionadas a diferentes questões sociais.
Josiane também recomenda repertórios sociológicos e literários, como o conceito de Modernidade Líquida, do sociólogo Zygmunt Bauman, e a obra O Cidadão de Papel, de Gilberto Dimenstein.
Outra indicação é Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960. A obra autobiográfica aborda questões como fome, racismo estrutural, desigualdade social, dificuldades de moradia e invisibilidade das populações periféricas.
Segundo a professora, essas referências podem contribuir para a construção de argumentos fundamentados em diferentes propostas de redação.
Séries também podem contribuir para a preparação
Além dos livros e documentos históricos, Josiane indica duas séries brasileiras como possibilidades de ampliação do repertório sociocultural.
Segunda Chamada apresenta questões relacionadas à educação e às desigualdades sociais, enquanto Sob Pressão permite refletir sobre diferentes desafios ligados à saúde.
As produções podem ajudar os estudantes a estabelecer relações entre situações retratadas na ficção e problemas sociais que eventualmente sejam abordados na redação.
Preparação para o ENEM também envolve acolhimento emocional
No Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora, a preparação dos alunos do terceiro ano do Ensino Médio não se limita aos conteúdos acadêmicos.
Ao longo do ano, os estudantes trabalharam a estrutura da redação dissertativo-argumentativa e produziram textos sobre diferentes temáticas. Na reta final, a escola intensificou as revisões com materiais exclusivos, atividades direcionadas por área e horários especiais.
Paralelamente, o colégio desenvolveu ações de acolhimento emocional para ajudar os jovens a enfrentar a expectativa em torno do exame e a conclusão do Ensino Médio.
Nas últimas semanas, os estudantes participaram de atividades como meditação guiada, passeio ao parque, recebimento de cartas de incentivo das famílias e entrega do Kit ENEM, com camisetas abençoadas por uma irmã religiosa.
A programação também prevê um passeio comemorativo de carreta pela cidade, um encontro especial com as famílias e a dinâmica das Caixas de Emoções, que marcará esse período de encerramento de ciclo. A proposta da escola é conciliar a preparação pedagógica com momentos de convivência, fortalecimento dos vínculos e cuidado emocional.
Para Josiane, mais importante do que tentar adivinhar o tema da redação é chegar ao exame com referências que possam ser utilizadas de forma adequada em diferentes discussões.
Independentemente do assunto escolhido pela banca, a professora reforça que bons repertórios ajudam o estudante a desenvolver um texto com fundamentação sólida e coerente.