Coordenadora explica como leitura, brincadeiras e situações simples do cotidiano podem contribuir para o desenvolvimento da leitura e da escrita
Celebrado em 8 de setembro, o Dia Mundial da Alfabetização reforça a importância da leitura e da escrita para a autonomia, a cidadania e a participação na sociedade. Na infância, a aquisição dessas habilidades acontece de forma gradual e envolve muito mais do que aprender letras, sílabas e palavras.
No Brasil, a alfabetização formal ocorre nos primeiros anos do Ensino Fundamental. Segundo Jéssica Ferreira, coordenadora da Educação Infantil e do 1º ano do Ensino Fundamental do Colégio Stella Matutina, o processo ganha maior intensidade no 1º ano, continua no 2º e, no 3º ano, espera-se que as habilidades relacionadas à alfabetização estejam consolidadas. No entanto, os primeiros contatos podem surgir antes.
“Algumas crianças iniciam uma pré-alfabetização ainda aos 5 anos, na Educação Infantil, realizando associações entre letra e som, pequenas escritas e leituras”, explica a educadora.
Além do trabalho desenvolvido pela escola, experiências vivenciadas em família podem favorecer esse aprendizado. A seguir, Jéssica Ferreira lista atitudes que ajudam a estimular a alfabetização de maneira natural e prazerosa.
- Seja um exemplo de leitor
Antes mesmo de saber ler, a criança observa a relação dos adultos com livros, revistas, jornais e outros textos. Por isso, cultivar o próprio hábito de leitura é uma das maneiras de despertar a curiosidade dos pequenos.
“Os adultos serão sempre as principais inspirações das crianças. Uma criança que vê seu familiar lendo com frequência entenderá que esse hábito é necessário e terá condições e interesse para, no futuro, também ser uma boa leitora”, afirma Jéssica Ferreira.
Além de disponibilizar livros, é importante que a criança perceba que a leitura faz parte da rotina da casa e tem diferentes funções no cotidiano.
- Crie momentos de leitura em família
Reservar alguns minutos do dia para ler junto com a criança ajuda a aproximá-la das palavras e ainda pode fortalecer os vínculos familiares. A leitura antes de dormir, por exemplo, pode se transformar em um ritual prazeroso.
O momento não precisa funcionar como uma aula. Conversar sobre a história, observar as ilustrações, fazer perguntas sobre os personagens e deixar a criança antecipar acontecimentos são maneiras de estimular a compreensão e o interesse pela linguagem.
- Troque bilhetes e recadinhos
A escrita pode aparecer de maneira divertida no cotidiano. Deixar um recado na geladeira, escrever um bilhete para outro integrante da família ou produzir juntos uma lista são atividades simples que mostram à criança que escrever tem uma função real.
“Momentos prazerosos que estimulem essas habilidades no dia a dia são essenciais, seja na leitura a dois antes de dormir, seja em uma brincadeira de escrever recadinhos e bilhetes um para o outro. Essas experiências constroem memórias afetivas e dão oportunidade de inserir o hábito de ler e escrever”, explica a coordenadora.
- Aproveite os interesses da criança
Animais, futebol, princesas, dinossauros, desenhos ou personagens favoritos podem se tornar aliados da alfabetização. Utilizar assuntos pelos quais a criança já demonstra curiosidade torna o contato com palavras e textos mais significativo.
Segundo Jéssica Ferreira, não existe uma única estratégia capaz de atender igualmente todas as crianças. “Quando o professor planeja vivências que dialogam com os interesses delas e oferece estímulos diferenciados, o alcance positivo nos resultados é muito maior do que quando o trabalho fica restrito a uma única metodologia”, explica.
Em casa, o mesmo princípio pode ser aplicado na escolha de livros, histórias, jogos e brincadeiras.
- Brinque com letras, sílabas e sons
A alfabetização também pode acontecer de maneira lúdica. Brincadeiras de encontrar palavras que começam com determinado som, formar palavras, reconhecer letras do próprio nome ou descobrir rimas ajudam a criança a prestar atenção à relação entre a linguagem falada e a escrita.
O importante é adequar as atividades à idade e ao momento de desenvolvimento da criança, evitando transformar a brincadeira em cobrança por resultados.
- Evite comparações e respeite o processo
Mesmo existindo habilidades esperadas para cada etapa escolar, as crianças não necessariamente avançam no mesmo ritmo. Por isso, comparar o desempenho com irmãos, colegas ou outras crianças pode gerar pressão desnecessária.
A escola também deve ser uma importante referência para a família entender como está o desenvolvimento. “Família e escola precisam ser parceiras indissociáveis no processo de alfabetização”, destaca Jéssica Ferreira.
- Observe possíveis dificuldades e converse com a escola
Trocas de letras, dúvidas e tentativas fazem parte da aprendizagem, mas dificuldades persistentes merecem atenção. Por isso, em vez de tentar diagnosticar o problema em casa, a recomendação é conversar primeiro com os profissionais que acompanham a criança na escola.
Alguns aspectos anteriores à própria escrita também podem oferecer pistas. Conforme explica Jéssica Ferreira, dificuldades persistentes na pronúncia de determinados sons, por exemplo, podem repercutir posteriormente na escrita.
“O primeiro passo é o alinhamento com a escola. Depois, é necessário que a família esteja atenta a alguns requisitos. Se a criança apresenta uma fala complexa e não pronuncia corretamente determinados fonemas, certamente poderá encontrar algumas dificuldades para transpor esses sons para a escrita”, afirma.
Quando necessário, a avaliação e o acompanhamento de profissionais especializados podem ajudar a identificar as necessidades da criança e oferecer o suporte adequado.
Alfabetizar também é proporcionar autonomia
A importância da alfabetização ultrapassa o desempenho escolar. Saber ler, escrever e compreender diferentes tipos de texto permite que, ao longo da vida, o indivíduo tenha mais autonomia para buscar informações, tomar decisões e exercer seus direitos.
“A alfabetização e o letramento são habilidades primordiais para a vida em sociedade. Não envolvem somente escrever ou decodificar um texto, mas também compreender e fazer uso social dos diferentes gêneros textuais”, explica Jéssica Ferreira.
Para a educadora, proporcionar essas competências desde a infância tem reflexos que acompanham o indivíduo até a vida adulta. “Ensinar uma criança a ler, escrever e compreender é dar a ela ferramentas para exercer sua cidadania com dignidade”, conclui.